O melhor, o pior e o que é adequado

Um post interessante do Moxie Marlinspike, falando sobre uma filosofia do Dustin Curtis, onde ele só compra “as melhores coisas”. A racionalização dele é a seguinte:

“The best” isn’t necessarily a product or thing. It’s the reward for winning the battle fought between patience, obsession, and desire. It takes an unreasonably long amount of time to find the best of something. It requires that you know everything about a product’s market, manufacture, and design, and that you can navigate deceptive pricing and marketing. It requires that you find the best thing for yourself, which means you need to know what actually matters to you.

O Moxie desenvolveu a seguinte teoria:

So I’d like to respond with an alternate philosophy that I will call “the worst.” The worst stands in direct contrast to Dustin Curtis, and suggests that one is actually more likely to engender a liberated life by getting the very worst of everything whenever possible.

The basic premise of the worst is that both ideas and material possessions should be tools that serve us, rather than things we live in service to. When that relationship with material possessions is inverted, such that we end up living in service to them, the result is consumerism. When that relationship with ideas is inverted, the result is ideology or religion.

Eu não concordo com as duas teorias. A do Dustin é insensata e a do Moxie também. E vou dizer o porquê, contando duas historinhas.

Mas, desde já, vou chamar a minha filosofia de “o adequado”.

***

Vocês já usaram uma xícara cuja alça aquece junto com o resto dela?

Minha mãe comprou um conjunto de xícaras lindas. Mas elas tem um problema: quando colocamos uma bebida quente, a alça esquenta. Ela não foi fabricada direito. E não só isso: eu vejo mais e mais xícaras com o mesmo problema em cafeterias: locais cuja função principal (e as vezes cuja única função) é vender café. E essas coisas só são fabricadas porque são compradas por gente que busca uma filosofia do “pior”. Gente que não tem dinheiro nem entra na equação aqui, ok?

Um visitante sensato vai te desculpar por tu não ter uma xícara com detalhes pintados, mas ele não vai te perdoar por queimar os dedos dele.  Como a maior parte das pessoas nunca teve problemas com xícaras antes na vida, elas nunca tiveram de pensar o que faz uma xícara ser boa. Nunca pensaram nos prós e contras de cada material, da grossura deles, das dimensões, das formas. Nem sequer observaram se eles bebiam mais de uma xícara ou se eles deixavam o resto do chá lá dentro, porque a xícara que já tinham em casa era muito pequena ou muito grande, respectivamente.

É por isso que eu considero a filosofia do Moxie insensata. “O pior” prevê uma confiança de que existe uma qualidade mínima para tudo que tu encontra. Isso não existe. Para tudo, inclusive xícaras, tu precisa dedicar um mínimo de pensamento para ter certeza de que tu encontrou uma solução adequada às tuas necessidades.

***

Eu amo meu iPod. Ele era, na época que eu comprei, “o melhor”. Mas eu não comprei ele por conta disso, mas porque eu precisava de uma solução para um problema. Eu não tenho carro e eu moro longe de todos os lugares que eu gosto de ir. Isso implica que eu preciso andar muito de ônibus e eu enjoo lendo livros no ônibus. Eu queria, então, ter certeza de que eu não estava desperdiçando duas a três horas do meu dia.

Eu tentei primeiro resolver esse problema com celulares. “Um Dispositivo para todos dominar.” O que eu percebi é que eu perdia exatamente o que fazia do celular uma coisa útil: mobilidade. Minha bateria acabava rapidamente, pois celulares não eram feitos com esse tipo de uso em mente (por razões técnicas que eu não vou explicar neste post). Eu ficava preso ao meu carregador de celular, que era tão grande quanto ele próprio. MP3 pequenos e baratos criavam barreiras também: vida de bateria patética, pouca memória, diversos problemas de fabricação, fone de ouvido incapaz de resistir a duas semanas de uso.

O que eu queria era simples: um mp3 player que não prejudicasse a minha rotina e que eu tivesse certeza de que funcionaria a qualquer momento. Foi o iPod touch (mais barato da época) que eu comprei, simplesmente porque supria minha necessidade e estava disponível de forma imediata. Mesmo que custasse o olho da cara, eu sabia que eu usaria diariamente, por aproximadamente 20% do meu tempo acordado.

Meu celular hoje é um Nokia 2720. Eu nunca precisei de um celular melhor do que esse para fazer meu trabalho e me comunicar. Muito básico, mas tem bom volume, boa recepção e uma bateria que aguentou dois anos de abuso. Poderia fazer mais com um celular melhor? Poderia, mas seriam todas coisas pessoais, e não de trabalho. Talvez até atrapalhassem meu trabalho.

Em outras palavras, eu busquei o que é adequado para mim. Aconteceu que uma das coisas que eram adequadas para mim coincidiu de ser “o melhor”.

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