A importância da estratégia

Um dos pontos que mais me chamaram atenção na palestra do Willie Smits na TED (veja o último artigo) foi que, de certa maneira, ele me lembra das teorias de John Boyd. A comparação pode parecer absurda, já que este último era um piloto de caça, um estrategista militar; e o primeiro é uma pessoa que viu um problema sério na sua comunidade e tentou resolver, de forma totalmente inclusiva e pacífica. Mas a comparação é inevitável e as semelhanças inegáveis.

O erro aqui, cometido por muitas pessoas de índole pacífica, é não perceber a semelhança entre eles mesmos e os guerreiros de nossa época. Os oficiais militares nada mais são do que especialistas em solução de conflitos. Muito pode ser aprendido se você souber interpretar o que eles ensinam.

Vamos analisar o que Smits fez nos termos que Boyd colocou em Patterns of Conflict (slide 141 em todas as citações):

Objetivo Nacional

Melhorar nossa capacidade, como um todo orgânico, para moldar e lidar com um ambiente sempre em mutação.

Não há melhor forma de descrever o que Smits está tentando fazer por seu país.

Macro-Estratégia

Moldar a busca do objetivo nacional para que nós não apenas amplifiquemos nosso espírito e força (enquanto minamos e isolamos nossos adversários), mas também influenciamos os descompromissados ou adversários potenciais para que eles sejam trazidos à nossa filosofia e tenham empatia com nosso sucesso.

Novamente, definição irrepreensível, embora não pareça muito claro de início.

Quem é o “nós” na definição? A população do distrito de Samboja como um todo, incluindo humanos, fauna e flora.

E quem são os adversários que devem ser minados e isolados? Ironicamente eles são uma parcela do “nós”: os humanos de Samboja. Eu não digo “os humanos maus de Samboja”, mas sim toda a população humana de Samboja, pois eles desmatam, fazem queimadas, utilizam os recursos naturais de maneira predatória e maltratam os orangotangos de várias formas (lembrando que os orangotangos existem em Bornéu e Sumatra). Além disso, Samboja tem um outro inimigo: queimadas naturais. A macro-estratégia de Smits é:

  • minar qualquer possibilidade das pessoas voltarem aos seus hábitos destrutivos — que buscavam lucro a curto prazo através da destruição das florestas ou da exploração de orangotangos;
  • minar a capacidade das queimadas de causar prejuízos financeiros aos habitantes e destruir o habitat da fauna de Samboja e Bornéu como um todo;
  • isolar os habitantes que não cooperarem;
  • trazer as pessoas que estão “em cima do muro” para o lado de quem deseja conservar a vida selvagem de Samboja e Bornéu como um todo;
  • mostrar para os adversários potenciais que o modelo é sustentável e é melhor que eles estejam do seu lado do que contra ele.

Objetivo Estratégico

Diminuir a capacidade de adaptação do adversário enquanto melhoramos nossa capacidade de nos adaptarmos como um todo orgânico, para que nosso adversário não possa lidar — enquanto nós podemos lidar — com eventos/esforços enquanto eles se desenrolam.

Quanto mais dentro do sistema de Smits uma família participante está, mais difícil é sair. Os benefícios são tão grandes (especialmente para um local com 50% de desemprego em 2002) e o modelo é tão sustentável que participar não é apenas a coisa certa a se fazer: é a única saída.

Por outro lado, para quem está fora, é fácil entrar. A medida que cada ano passa o solo de Samboja empobrece, as fontes de renda vão se esvaindo, e o resultado final é inevitável: ou a pessoa se desfaz da terra, ou tenta recuperá-la. Ao se desfazer da terra, dependendo do preço, a possibilidade de Smits comprá-la é maior, pois o solo pobre é barato. Ao tentar recuperar o solo, a escolha do modelo de Smits é a mais óbvia.

A redução no número de queimadas e incêndios naturais é o resultado natural derivado de Smits alcançar os objetivos estratégicos.

Estratégia

Penetrar no ser moral-mental-físico do adversário para dissolver sua fibra moral, desorientar suas imagens mentais, atrapalhar suas operações e sobrecarregar seu sistema, assim como subverter, quebrar, agarrar ou de outra forma subjugar esses bastiões, conexões ou atividades morais-mentais-físicos das quais ele depende, de forma a destruir sua harmonia interna, produzir parálise, e causar colapso na vontade do adversário de resistir.

Como Smits falou, explicar a estratégia é simples: Ele comprou a terra e deu um jeito na ameaça do fogo primeiro. Ou seja, derrotou o primeiro adversário atrapalhando as suas operações, subjugando a atividade física da qual ele depende, causando parálise e colapso em seu sistema.

Então ele começou o reflorestamento com um projeto de gerenciamento profissional (começou a derrotar o segundo adversário). Durante todo o processo a população local estava completamente envolvida para que nenhuma força externa pudesse interferir. Ou seja, trouxe os descompromissados e os adversários potenciais para o seu lado, dissolveu a fibra moral do adversário ao atrapalhar suas operações e ao quebrar os bastiões morais-mentais-físicos do qual a atividade predatória dependida. O adversário não tem resistido, e vem se rendendo à causa mais justa.

Os pilares desse projeto, segundo Smits, são que ele é:

  • socialmente aceitável;
  • economicamente funcional;
  • ecologicamente sustentável;
  • possui base científica;
  • é plenamente legalizado.

Observando o que ele possuía em termos de plantas, fertilizantes e habilidades disponíveis, ele desenvolveu um plano de trabalho e um plano de negócios — a base estratégica para que tudo isso funcionasse.

Macro-tática

Manobrar o adversário além de sua capacidade moral-mental-física de se adaptar ou se sustentar para que ele não possa nem adivinhar nossas intenções nem focar seus esforços para lidar com o desenho estratégico que se desenrola ou ataques decisivos relacionados enquanto os ataques os penetram, dividem, isolam ou cercam, e os sobrepujam.

A macro-tática de Smits gira em torno de:

  • Incapacitar o fogo de se sustentar ou se adaptar fisicamente. A curto prazo isto é feito através de táticas de combate ao incêndio (emprego dos moradores de Samboja como combatentes do fogo provisórios) e a longo prazo com a criação de uma barreira natural contra o fogo. Essa barreira é feita com uma plantação de palmeiras produtoras de açúcar — que não queimam facilmente — cercando o terreno contra incêndios que vêm de fora.
  • Manobrar qualquer resistência humana contra a conservação das florestas e da fauna para além da capacidade dos agentes destrutivos de agir contra a comunidade unida ou sustentar seu modelo depredatório — uma das táticas para chegar a essa macro-tática vem da própria plantação de palmeiras: o etanol extraído delas pode ser utilizado para gerar energia e pode ser vendido também, gerando renda.

Táticas

Observar-orientar-decidir-agir mais discretamente, mais rápido, e com mais irregularidade como base para manter e ganhar iniciativa assim como moldar e mudar o esforço principal: de repetidamente e inesperadamente penetrar vulnerabilidades e fraquezas expostas por esse esforço ou outro(s) esforço(s) que chamam, desviam, ou drenam a atenção do adversário (e força) em outro lugar.

Eu já falei de algumas táticas enquanto falava da macro-tática, mas só para ilustrar o quão em sintonia Smits e Boyd estão, dê uma olhada em 10:40 do vídeo, mais ou menos onde Smits começa a falar do seu programa de reflorestamento.

  • Irregularidade: Smits mostra que a natureza não dispõe a vegetação de forma regular. Da mesma forma, seu plano de reflorestamento não inclui monocultura. O projeto não funcionaria sem que a irregularidade fosse a lei. A irregularidade também significa agarrar oportunidades quando elas surgem: uma queimada não planejada que precisa ser apagada torna-se uma oportunidade de empregar mais pessoas.
  • Rapidez: Assim como um exército envia uma companhia leve para fazer o reconhecimento à frente, Smits enviou árvores de crescimento rápido e vida curta para restaurar o microclima para espécies que viriam mais tarde. Preparar e proteger o solo o mais rápido possível era importante para evitar novas queimadas e começar a reconstruir o habitat dos orangotangos.
  • Sendo discreto: O programa de reflorestamento também tinha como objetivo criar empregos. Smits portanto limitou o número de plantios por dia em 1.000 árvores. Isso impediu que as pessoas contratadas por Smits ficassem sem emprego. Ele soube fazer concessões com sabedoria.
  • Explorar vulnerabilidades e fraquezas: Vendo o lado da natureza e do âmbito humano:
    1. Considerando que o adversário na natureza é o solo pobre que possui apenas vegetação rasteira, a vulnerabilidade desse adversário é exatamente a de ele ser aberto. Um plano de plantio que permite que cada árvore possua o máximo de exposição ao sol e tenha pouca competição por nutrientes faz com que as árvores se desenvolvam melhor. Uma vez que elas se desenvolvem, os fungos se alimentam das folhas que caem, trazem os nutrientes de volta ao solo e alimentam as árvores. O solo é “derrotado” por assim dizer, e trazido para o lado de Smits.
    2. Considerando que o adversário no âmbito humano é o desemprego, a criação de empregos é explorar uma fraqueza da sociedade. Dizendo isso dessa forma, parece um tanto agressivo, mas essa criação de empregos em locais pobres pode ser feita de forma aproveitadora ou de forma correta.
  • O ciclo OODA: Smits criou sistemas de monitoramento eficazes, criando assim seu efeito de “nacele em bolha”. Monitorando o Samboja Lestari utilizando recursos sofisticados — como um satélite — e recursos naturais — como hervas que crescem no solo e permitem uma medição da qualidade do mesmo — Smits criou mecanismos de observação que permitem uma orientação muito mais precisa do que ele teria de outra forma.

Conclusão

Depois de tanta análise, eu percebo como é difícil compreender uma mente brilhante como a de Willie Smits com uma cabeça tão pequena quanto a minha. Mas eu posso compreender isto: ele está lutando a guerra justa.

Boyd usou seu cérebro para lutar contra a burocracia burra de Washington. Ele se recusou a aceitar a doutrina de que um soldado deve apenas seguir ordens. Ele se recusou a aceitar a política da contagem de corpos como indicador de quem ganhou uma guerra. Seu objetivo era deixar os seus compatriotas vivos, e os inimigos também vivos — embora em condição de prisioneiros de guerra, era melhor estar vivo do que morto. Ele mostrou que não só as manobras utilizadas nos caças e bombardeiros americanos, mas também os aviões mal-projetados da Força Aérea e as táticas americanas mal-sucedidas no Vietnã eram frutos de falta de estudo, de planejamento estratégico e de ação coordenada. Ele mostrou que um homem pode, figuradamente, “fazer chover”.

Smits utilizou seu cérebro para lutar contra a terceira maior emissão de carbono do mundo, um crescimento gradual na temperatura média local, desastres naturais, pobreza, doença, degradação do meio-ambiente, um desaparecimento de quase todas as aves e insetos de Samboja, e a morte de orangotangos — vendidos como canários nas ruas, ou mortos para servir de janta nas casas pobres. Ele se recusou a aceitar a doutrina de que o preço de uma comunidade humana próspera é um ambiente destruído. Ele mostra que a condição atual do nosso planeta nada mais é do que falta de estudo, de planejamento estratégico e de ação coordenada. Ele mostrou que um homem pode literalmente fazer chover.

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