Grátis
Só uma discussão entre Chris Anderson (Wired), Malcolm Gladwell (The New Yorker) e Seth Godin é capaz de ressucitar minha vontade de blogar. Desta vez eles discutem o novo livro de Anderson, chamado “Free”, que aparentemente tenta explicar como o gratuito pode ser um modelo de negócios válido.
Ele não é. Ponto para Gladwell aqui.
Mas ele faz parte do modelo. Ponto para Anderson e Godin aqui.
Gladwell está correto em lembrar que a infraestrutura é cara, e que não importa o que você faça, esse custo não vai desaparecer. A matéria-prima que compôe essa infraestrutura e a fabricação em si podem chegar a ser ridiculamente baratos em um nível unitário, mas não na escala necessária para fazê-la funcionar.
Anderson, portanto, erra em citar Lewis Strauss, mas não erra em dizer o seguinte sobre o jornalismo e os jornalistas:
Pode haver mais deles, não menos, enquanto a habilidade de participar no jornalismo se estende além dos grupos credenciados da mídia tradicional. Mas eles podem receber muito menos dinheiro, e para muitos ser jornalista nem será um trabalho de tempo integral. O jornalismo enquanto profissão dividirá o palco com o jornalismo como passatempo.
Aqui é onde as coisas começam a sair dos trilhos:
Enquanto isso, outros podem usar suas habilidades para ensinar e organizar amadores para fazer um trabalho melhor na cobertura de suas próprias comunidades, tornando-se mais editores/treinadores do que escritores. Se for assim, a alavancagem do Grátis — pagar as pessoas para fazer com que outras pessoas escrevam por recompensas não-monetárias — pode não ser o inimigo dos jornalistas profissionais. Na verdade, pode se tornar sua salvação.
Não há lógica nessa frase, e eu gostaria de explicar o porquê. A frase-chave aqui é: “pagar as pessoas para fazer com que outras pessoas escrevam”.
O meu ponto de vista é que se substituirmos “escrevam” por outra ação intelectual qualquer, fica claro (para mim) que as pessoas que serão pagas estarão ou no ramo do fornecimento da infraestrutura que torne viável uma ação intelectual em particular, ou no ramo de pesquisa e desenvolvimento. Mas ensinar jornalismo, ou qualquer outra matéria similar, é uma ação puramente intelectual (ao contrário do ensino da medicina e matérias similares a ela, por exemplo), e portanto o seu conteúdo tenderá a ser produzido e divulgado gratuitamente. A infraestrutura para que o ensino ocorra, contudo, não será. Tampouco a pesquisa e desenvolvimento, pois o número reduzido de pessoas que tirarão seu sustento dessas profissões “gratuitas” dependerão como nunca da estratégia da diferenciação, que só vem através da inovação.
Bem, aparentemente eu já dei a resposta à minha própria pergunta sobre quem pagará pela pesquisa e desenvolvimento. Mas quem pagará pela infraestrutura? Todo jornalista hoje gostaria de acreditar que seriam os leitores, ou no mínimo os anunciantes. Eu estou mais inclinado a acreditar que serão os próprios jornalistas. Muitos blogueiros pagam a sua hospedagem e o seu domínio sem nenhuma expectativa de retorno. Não duvido que muita gente estivesse disposta a pagar por mais regalias no Twitter não apenas do ponto de vista de facilitar o acompanhamento das discussões, mas também para disseminar mais facilmente as suas opiniões.
Independentemente do que você acha das minhas opiniões, eu sugiro uma leitura completa dos textos do Gladwell e do Godin. Talvez sejam os mais importantes que você vai ler sobre o assunto.