Erros e acertos na indústria musical
Apesar de tudo de ruim que ocorre no mundo da música, eu me sinto um tanto abençoado em poder ver uma grande mudança acontecendo bem diante dos meus olhos. Muitas ocorreram enquanto eu crecia, mas esta é a primeira vez que eu tenho discernimento o suficiente para compreender a mudança.
Duas coisas vieram ao meu conhecimento neste mês de março que merecem menção, pois batem de frente com o novo marketing e o comércio como ele é hoje.
Premissas
É importante deixar claro que, para um músico, é mais lucrativo fazer shows do que vender albuns, pois no show ele ganha uma parcela maior da renda.
Por outro lado, também gostaria de deixar claro que a Web 2.0 é, na verdade, uma buzzword para “produto digital melhorado a partir da contribuição do usuário”.
Esses dois conceitos são importantes.
Caso um: Nine Inch Nails
Duas bandas fizeram sucesso em 2007/2008 nos círculos do marketing: Radiohead, que lançou o album In Rainbows em um modelo “pague o que quiser” e o Nine Inch Nails, que lançou o album Ghosts I gratuitamente, enquanto você deveria comprar as outras partes.
Em 2008 o NIN lançou o album The Slip gratuitamente pelo seu site. Junto com isto, eles começaram a turnê Lights In The Sky, que foi um sucesso, apesar de fiascos como o cancelamento dos shows no Brasil, que lhe rendeu apelidos como Blackout In The Sky. (Ressalva: Eu sou fã da banda e eu tinha comprado já os tickets para o show de Porto Alegre.)
Chegando ao ponto finalmente, em 13 de dezembro de 2008, o último show da turnê foi gravado por “dúzias de fãs” em Las Vegas, que se organizaram a partir do fórum da banda. Em algum ponto de janeiro, o próprio Trent Reznor avisou os usuários que devido a uma “falha na segurança” (aham…) um grupo de pessoas conseguiu “de alguma forma” gravar 400GB em vídeos de alta definião dos shows de Victoria, Portland e Sacramento.
O resultado é o DVD Another Version of the Truth, que está em produção pelos fãs da banda. Mas o pessoal do projeto, em thisoneisonus.org, já disponibilizou o áudio das apresentações (nomeadas “Las Vegas” e “The Gift”) em MP3 e FLAC.
Aqui está o teaser do DVD:
O que mais me chamou a atenção nessa história toda não foi a bondade do NIN com os fãs que trabalharam e ainda trabalham de graça em prol de uma banda que amam.
O que mais me chamou a atenção mesmo foi uma afirmação do Ash512, editor chefe do projeto, ao anunciar o progresso do projeto no dia 15 de março:
Nós na verdade descobrimos que as filmagens que vocês enviaram são em geral mais fixas, melhor planejadas e completas, ao contrário das coisas do gift, que são apressadas, mexidas e sofrem de falta de direção.
Ou seja, nem toda a boa vontade da banda, nem o acesso ao backstage, nem a câmera em alta definição usada pelo NIN foi capaz de se comparar à ação planejada de fãs voluntários.
Sozinho, o Nine Inch Nails não conseguiria fazer o que os fãs fizeram. Graças aos fãs a banda terá ainda mais marketing gratuito, aumentando a demanda por shows em todo o mundo.
Caso dois: Last.fm
A Last.fm é um serviço Web 2.0 clássico: uma rádio online e rede social ao mesmo tempo. Através do site deles ou de um programa de computador chamado scrobbler, eles capturam dados sobre o que você escuta, determina a partir desses dados quais são as suas preferências musicais, e então recomenda músicas ou bandas que você provavelmente gostaria de ouvir, ou saber quais pessoas são mais ou menos compatíveis com as suas preferências musicais. (Ressalva: Eu sou usuário da Last.fm e eu pago pelos serviços premium.)
Dia 24 de março a Last.fm publicou em seu blog oficial que deixará de ser um serviço gratuito com opção para assinatura de serviços premium. Em vez disso, ela cobrará € 3,00 de usuários de todo mundo, exceto EUA, Reino Unido e Alemanha. A racionalização é que, nestes três países, a receita gerada pelos anúncios de propaganda (que aparecem se você não é usuário premium) são suficientes para manter o serviço ativo. Nos outros, isto não é possível.
Eu poderia enumerar uma série de motivos pelos quais eles não deveriam ter feito essa decisão. Talvez a mais grave, do ponto de vista financeiro, é a que alguém pode processá-la na União Européia por praticar preços díspares nos países membros. A própria Apple já teve de enfrentar a União Européia por fazer isto com a iTunes Store. Isto pode forçar a Last.fm a fazer uma decisão: cobrar de dois dos três países que ela não está cobrando, ou isentar de cobrança os 25 outros países da União Européia. De um lado se perde usuários, do outro lado se perde dinheiro.
Mas eu vejo um fator ainda mais grave. Como eu disse na apresentação ao serviço, ele se torna funcional apenas quando os usuários o utilizam. Ou seja: se ninguém escutar música na Last.fm ou enviar dados para a Last.fm, o serviço não possuiria informação suficiente para analisar as preferências musicais de ninguém.
Portanto, tecnicamente todo usuário da Last.fm é um prestador de serviços da empresa. Eu pessoalmente nunca diria a um pedreiro que ele só pode construir a parede da minha casa se ele pagar, e que se ele resolver trabalhar de graça não poderá usufruir da minha casa. Mas foi basicamente isso que a Last.fm fez.
Sozinha, a Last.fm não conseguiria fazer o que os usuários fizeram. Graças aos usuários a Last.fm tornou-se o mais exato termômetro de tendências musicais no mundo. Sem usuários, a Last.fm perde valor de mercado.