Rodrigo Jaroszewski

John R. Boyd

Publicado em Devaneios, John Boyd por Rodrigo Jaroszewski em 25/01/2006

John BoydEm 23 de janeiro de 1927 em Eerie, PA, nasceu John Boyd, um homem tão brilhante que o seu biógrafo Robert Coram rotulou de “o mais importante homem desconhecido de sua época e o maior herói esquecido da história militar estadunidense”. Certamente é o meu herói pessoal desde que o conheci, há 3 semanas atrás.

Descobri sua obra enquanto pesquisava questões militares gerais. Um belo dia estava no trabalho e minha mãe apareceu no MSN fazendo uma pergunta sobre Clausewitz. Ela não sabia quem era, mas ficou espantada, como todos até hoje que conheço, ao ler sua famosa frase: “A guerra é a continuação da política por outros meios.” Comecei então a pesquisar Clausewitz na internet, achei o site Clausewitz Homepage e pus-me a ler o FAQ. Já nas primeiras perguntas li um fato interessante, de que Clausewitz seria uma fonte de informação para o Marine Corps Doctrinal Publication 1: Warfighting, ou MCDP1, a revisão de 1997 do FMFM1: Warfighting.

Eu estava familiarizado com a doutrina de guerra de manobras da USMC (United States Marine Corps, Corpo de Fuzileiros Navais dos Estados Unidos), mas nunca havia lido os verdadeiros documentos sobre a doutrina. Pensei que assim como a USAF o caso fosse tratado como um segredo guardado à sete chaves (Você duvida? Tente este site: http://www.doctrine.af.mil/), somente disponível àqueles que prestem ou prestaram serviço à Corporação. Felizmente, isto não é verdade, e eu consegui rapidamente no Google o site da Colorado Firecamp com uma cópia em HTML do MCDP1!

Ok, definitivamente as coisas começaram a esquentar. Antes de ler eu já gostava da doutrina da USMC, depois de ler não poderia pensar em outro ramo das forças armadas de qualquer outro país no mundo em que eu me alistaria sem titubear. O MCDP1 é um trabalho de gênio, eu pensei, mas na verdade é um trabalho de gênios! Sun Tzu está lá em força, Clausewitz também (nas motivações e na condução da guerra), Liddel Hart, Napoleão Bonaparte, Alexandre, Aníbal… E John Boyd??? Bem, nem vou me dar ao trabalho de procurar este ilustre desconhecido…

Como sempre, minha mente começou a divagar para a aviação, portanto resolvi dar uma visitada na boa e velha SimHQ.com, no bom e velho fórum Tiger Talk e angariar algumas informações. “No Guts, No Glory” – interessante esse nome! Fui visitar, um panfleto antigo distribuído na USAF, escrito pelo Major General (Major Brigadeiro) Frederick C. Blesse, disponível aqui. Mas isso não era o suficiente para mim. Continuei surfando no fórum até que achei um link interessante, From Air Force Figher Pilot to Marine Corps Warfighting.

Pronto.

Caiu a ficha.

Senhoras e senhores, como o próprio comandante da USMC na ocasião da morte de Boyd, em 1997, General Charles Krulak nos disse, “John Boyd foi o arquiteto [da vitória da Operação Tempestade no Deserto] tanto quanto se ele estivesse no comando de um Grupo de Aviação ou uma divisão de manobras no deserto”.

Uma breve biografia do finado Coronel (uma bem mais completa pode ser encontrada aqui: Alistou-se para o Exército em 1945 e participou da ocupação do Japão, onde liderou uma rebelião contra os comandantes que deixavam os seus subordinados passando frio e fome enquanto gozavam de uma vida tranqüila. Foi levado à corte marcial e a transformou em um seminário sobre responsabilidades dos comandantes.

Entrou na faculdade pela G.I. Bill, e voltou para a Força Aérea como piloto de caça. Durante a Guerra da Coréia pilotou em 20 missões o F-86 Sabre até que a guerra terminou. Ficou espantado com a proporção de 10:1 a favor dos estadunidenses no combate aéreo direto (e esta guerra foi conhecida como a última com enfoque na aviação de caça com participação dos Estados Unidos), não convencido de que fosse apenas melhor treinamento, como bradavam os generais. Descobriu que o cockpit em forma de bolha dava melhor visibilidade ao piloto do que o cockpit aerodinâmico do MiG-15, assim como os controles respondiam muito mais rápido e com muito menos necessidade de esforço pelo piloto, o que dava uma vantagem gigantesca na transição de uma manobra à outra. Aplicou este conhecimento na Fighter Weapons School (a precursora da famosa Top Gun da Marinha), onde tornou-se instrutor e remodelou todo o currículo. Escreveu um relatório técnico chamado Aerial Attack Study, que tornou-se a Bíblia do combate aéreo, adotado por várias forças aéreas do mundo. Ficou conhecido como o “40-second Boyd”, capaz de sair de uma posição de completa desvantagem para uma solução de tiro em combate aéreo em 40 segundos ou menos. Raramente precisava mais de 20, mas o prêmio de 40 dólares ao que o vencesse tornou-se o mais disputado da USAF. Ele nunca perdeu.

Deixou novamente o serviço para estudar Engenharia Industrial. Um dia teve um insight, percebendo que a Segunda Lei da Termodinâmica, principalmente no que fala sobre conservação e dissipação de energia, assemelha-se muito à troca de altitude, velocidade e posicionamento em um combate aéreo. Começou a trabalhar no projeto que revolucionou a maneira com a qual os aviões de caça são construídos, a teoria da Energy-Maneuverability, a primeira e única maneira acadêmica de medir performance entre dois aviões à jato. Sua teoria salvou o projeto que tornou-se o F-15 e serviu como base para o desenvolvimento do F-16 (o melhor avião de combate aéreo do mundo) e do F/A-18.

Após um tour como comandante de uma base secreta na Tailândia durante a Guerra do Vietnã, do qual só sabemos que seu serviço foi muito além de exemplar (incluindo o desenvolvimento de táticas que salvaram a vida de vários pilotos estadunidenses, já que o F-4 era tudo que um caça não deveria ser), voltou aos Estados Unidos e aposentou-se da USAF. Inicou seus trabalhos para o Departamento de Defesa em um pequeno cubículo na sala 2C281, a infame loja TacAir, onde revisou suas teorias sobre os confrontos dos caças da Guerra da Coréia, teorizando que nossa maneira de interagir com o mundo ao nosso redor passa por um processo de Observação, Orientação, Decisão e Ação, o famoso loop-OODA. Este loop pode ser aplicado a qualquer interação humana com o ambiente em que vive, desde decisões empresariais até decisões no campo de batalha. A partir deste ponto, Boyd começou a analisar a guerra de uma maneira geral, até formular por completo o seu “Discurso sobre Perder e Vencer”, uma palestra que quando completamente desenvolvida tinha carga horária de 15 horas, cujo material pode ser descarregado gratuitamente aqui. Inclui uma introdução criada especialmente para o então Secretário de Defesa Dick Cheney em 1990. Estou para dizer que qualquer um que leia seu discurso pode tornar-se um avaliador competente.

Ironicamente, o reconhecimento de seu trabalho veio de todos os outros ramos das forças armadas estadunidenses, à única excessão da USAF. A USMC foi além, pois seu contingente reduzido na Guerra Fria teria sido esmagado pelos soviéticos, e cogitava-se que talvez ela devesse ser extinta e seus soldados incorporados pelos outros ramos. A aceitação das teorias de Boyd como suas próprias não só salvou a USMC, como também trouxe os louros até então inimagináveis de ter uma performance no Golfo melhor do que a do próprio Exército na guerra terrestre!

De longe, a melhor passagem de sua biografia é esta, relatada por seu amigo e “parceiro no crime”, Chuck Spinney:

Tudo isso era lenda conheci Boyd em 1973, que vivia modestamente com Mary, a Santa, e seus cinco filhos em um apartamento velho na Virgínia do Norte. [...]
“Perguntei a ele uma vez porque vivia desta maneira. Ele chegou perto de meu rosto, seu sempre-presente cigarro preso entre os dentes e a brasa subindo e descendo à meio centímetro do meu nariz, e em meio a uma núvem de fumaça sufocante, ele explicou: ‘A coisa mais importante nesta vida é ser livre para fazer coisas. Há apenas duas maneiras de ter certeza dessa liberdade – você pode ser rico ou pode reduzir suas necessidades a zero. Nunca serei rico, então escolhi reduzir meus desejos. A burocracia não pode tirar-me nada, pois não há coisa alguma para tirar.
Esta declaração foi ao núcleo dos etos puritânicos. Para [Boyd], a vida girava em torno de uma simples escolha: ser ou fazer? Ele podia ser alguém, com todas as ferramentas rasas de poder e pequenas conquistas – alta patente, um grande escritório no Anel E do Pentágono, um grande emprego pós-aposentadoria em uma empresa contratada pelo Dep. de Defesa – ou ele poderia fazer coisas importantes e contribuir realmente com a sociedade. [Boyd] era mais interessado em fazer as coisas do que em ser alguém, então ele diminuiu suas necessidades. Sua escolha era realmente simples e lógica, embora bizarra e indecifrável aos habitantes de Sodoma às margens do Potomac.

2 Respostas

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  1. [...] dos seus livros. Chamou-me a atenção mais do que tudo este post sobre o John Boyd, fazendo uma conexão excelente sobre uma empresa cheia de competição interna e a vida de um [...]

  2. [...] Willie Smits na TED (veja o último artigo) foi que, de certa maneira, ele me lembra das teorias de John Boyd. A comparação pode parecer absurda, já que este último era um piloto de caça, um estrategista [...]


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