Rātsach ou nākāh?
Há muito me interesso por descobrir novos fatos lingüísticos sempre que possível. Somente neste ou no ano passado fui descobrir que o Sexto Mandamento é na verdade “não assassinarás” ao invés de “não matarás”, e isso é por si só uma diferença semântica muito grande. Acho que um dos piores males da humanidade é não prestar atenção devida à semântica, como se a própria fosse uma criança mal-comportada.
Hoje, ao ler meu jornal, deparei-me com dois de meus colunistas favoritos – Luís Fernando Veríssimo e Rosane de Oliveira – defendendo o sim. Para ser franco, considerava há muito a opinião do Sr. Veríssimo como sendo essa, transferindo o choque todo à escolha da Sra. Oliveira, por não ser do chamado “meio artístico”, embora não seja minha intenção referir-me a este de maneira pejorativa. O fato é que eu não esperaria nada diferente de um artista, e dou graças a Deus por isso! A realidade a nós impede o vôo; só a arte inspira a nós, os céticos, aqueles que trazem pedregulhos da lua e dizem “olhem! é quase igual aos nossos pedregulhos!” destituindo nossa deusa insana de sua beleza mística.
Mas fiquei a manhã inteira entre minhas tarefas a imaginar o que poderia argumentar sobre as opiniões desses dois ilustres colunistas, chegando à conclusão de que o melhor seria assegurar à Sra. Oliveira que não deixarei de ler a Página 10 por suas convicções, assim como não leio Paulo Sant’ana por ter convicções iguais às minhas. Leio ambos por considerar que, em suas áreas, são excelentes profissionais, e continuo considerando-os desta maneira. Contudo, creio que desde 2003 “vidas tiradas em brigas de trânsito” já não podem ser tiradas com armas legalizadas, haja vista tais armas não estão em situação legal quando portadas por civis, portanto é um assunto já resolvido (legalmente). Crimes passionais são, bem, passionais! É lamentável que antes das leis mais rígidas impostas hoje em dia pessoas com tais disfunções pudessem comprar tão livremente uma arma de fogo, mas agora o controle (legalmente) ajuda a evitar tais situações. Por fim, acidentes com adolescentes e crianças decorrem de falta de educação ou firmeza dos pais, associado ao lamentável Estatuto da Criança e do Adolescente em vigor neste país, que paternaliza os jovens impedindo-os de ocuparem-se em uma idade crítica, onde a falta de noção de valores (tanto morais quanto monetários) dá ímpeto à sua entrada em uma vida de criminalidade, protegendo-se atrás de um conveniente escudo, o da “educação para todos”, que força crianças inocentes a enfrentarem todo tipo de perigo, inclusive colegas delinqüentes.
Nesse espaço de tempo uma dúvida se instaurou em minha mente: quão diferente é realmente “assassinar” e “matar” em hebraico? O resultado de minha pesquisa é o título desta mensagem, respectivamente. Como pode-se facilmente perceber não é apenas na semântica que ambas diferenciam-se, tornando qualquer conflito de significado muito mais difícil de acontecer. É digno de nota que nossa palavra “assassino” vem do árabe haxxīxīn, que significa originalmente “consumidor de haxixe” segundo o Dicionário Houaiss, sendo preferível talvez a palavra “homicida”, vindo do lat. homicīda. A ironia é que hoje o fornecimento de drogas é um dos maiiores responsáveis pela criminalidade, embora a maior demanda não seja por haxixe.
Percebo o que parece ser uma falta de preparo generalizada da população brasileira para o terrível recontro com a realidade. A verdade é que estamos em uma situação de conflito frio, intelectual, verbal ou armado com o grande núcleo terrorista de nosso país, os traficantes e os corruptos. O “James Bond” da favela não está a serviço da Rainha e usa armas soviéticas, bebe pinga ao invés de uísque, fuma canabis ao invés de tabaco (quando não torna o tabaco mais viciante ainda), e como se tudo isso não bastasse ainda inspira uma nova geração a seguir seu exemplo.
A fórmula para sairmos desta crise é conhecida há muito: Tornar a educação e o atendimento médico acessíveis a todos em qualidade exemplar. Uma pessoa bem educada e saudável cria suas próprias formas de lazer sem necessidade de qualquer intevenção, salvo aquela advinda de seus pares. Desta forma o aumento do efetivo policial, a melhor formação desses servidores e o desarmamento da população torna-se questão de bom-senso, não de emergência ou, no caso do último, debate sobre uma questão improdutiva. A lamentável má-distribuição de renda é resolvida também pelos próprios brasileiros, pois uma educação de base consistente reforça os ideais de empreendedorismo e valoriza a mão-de-obra, restando apenas a coragem para que o Brasil invista em seu próprio povo, fornecendo os subsídios necessários para o crescimento de uma economia interna independente nos setores mais básicos.