Grátis
Só uma discussão entre Chris Anderson (Wired), Malcolm Gladwell (The New Yorker) e Seth Godin é capaz de ressucitar minha vontade de blogar. Desta vez eles discutem o novo livro de Anderson, chamado “Free”, que aparentemente tenta explicar como o gratuito pode ser um modelo de negócios válido.
Ele não é. Ponto para Gladwell aqui.
Mas ele faz parte do modelo. Ponto para Anderson e Godin aqui.
Gladwell está correto em lembrar que a infraestrutura é cara, e que não importa o que você faça, esse custo não vai desaparecer. A matéria-prima que compôe essa infraestrutura e a fabricação em si podem chegar a ser ridiculamente baratos em um nível unitário, mas não na escala necessária para fazê-la funcionar.
Anderson, portanto, erra em citar Lewis Strauss, mas não erra em dizer o seguinte sobre o jornalismo e os jornalistas:
Pode haver mais deles, não menos, enquanto a habilidade de participar no jornalismo se estende além dos grupos credenciados da mídia tradicional. Mas eles podem receber muito menos dinheiro, e para muitos ser jornalista nem será um trabalho de tempo integral. O jornalismo enquanto profissão dividirá o palco com o jornalismo como passatempo.
Aqui é onde as coisas começam a sair dos trilhos:
Enquanto isso, outros podem usar suas habilidades para ensinar e organizar amadores para fazer um trabalho melhor na cobertura de suas próprias comunidades, tornando-se mais editores/treinadores do que escritores. Se for assim, a alavancagem do Grátis — pagar as pessoas para fazer com que outras pessoas escrevam por recompensas não-monetárias — pode não ser o inimigo dos jornalistas profissionais. Na verdade, pode se tornar sua salvação.
Não há lógica nessa frase, e eu gostaria de explicar o porquê. A frase-chave aqui é: “pagar as pessoas para fazer com que outras pessoas escrevam”.
O meu ponto de vista é que se substituirmos “escrevam” por outra ação intelectual qualquer, fica claro (para mim) que as pessoas que serão pagas estarão ou no ramo do fornecimento da infraestrutura que torne viável uma ação intelectual em particular, ou no ramo de pesquisa e desenvolvimento. Mas ensinar jornalismo, ou qualquer outra matéria similar, é uma ação puramente intelectual (ao contrário do ensino da medicina e matérias similares a ela, por exemplo), e portanto o seu conteúdo tenderá a ser produzido e divulgado gratuitamente. A infraestrutura para que o ensino ocorra, contudo, não será. Tampouco a pesquisa e desenvolvimento, pois o número reduzido de pessoas que tirarão seu sustento dessas profissões “gratuitas” dependerão como nunca da estratégia da diferenciação, que só vem através da inovação.
Bem, aparentemente eu já dei a resposta à minha própria pergunta sobre quem pagará pela pesquisa e desenvolvimento. Mas quem pagará pela infraestrutura? Todo jornalista hoje gostaria de acreditar que seriam os leitores, ou no mínimo os anunciantes. Eu estou mais inclinado a acreditar que serão os próprios jornalistas. Muitos blogueiros pagam a sua hospedagem e o seu domínio sem nenhuma expectativa de retorno. Não duvido que muita gente estivesse disposta a pagar por mais regalias no Twitter não apenas do ponto de vista de facilitar o acompanhamento das discussões, mas também para disseminar mais facilmente as suas opiniões.
Independentemente do que você acha das minhas opiniões, eu sugiro uma leitura completa dos textos do Gladwell e do Godin. Talvez sejam os mais importantes que você vai ler sobre o assunto.
Um pequeno conto sobre liderança
Quando eu estava na quarta série do ensino fundamental, houve uma votação para líder da turma onde eu participei como candidato. A votação ocorreu em ordem alfabética, então até que chegasse minha vez de votar, eu já era um dos favoritos a vencer — até hoje não sei muito bem o motivo, pois nunca me considerei uma pessoa respeitada pelos outros durante meus anos de escola.
De qualquer forma, eu fiz algo que é impensável para alguém que está em uma votação: votei contra mim, em outro candidato. A minha mente de 10 anos achava anti-ético votar em si mesma.
A votação empatou. No desempate eu perdi e virei o vice-líder.
A única coisa que um líder de classe fazia, de verdade, era pedir que os outros alunos parassem de falar, ou ao menos conversassem mais baixo, quando eles perdessem a noção do barulho. Isso era trabalho do líder, mas eu, o vice-líder, fazia.
Portanto, além de aprender a fazer expressões matemáticas com parênteses, colchetes e chaves, eu aprendi algo importante que eu não percebi até que eu estivesse há muitos anos longe de lá: As pessoas me deram mais valor do que eu dei a mim mesmo, na votação. Por não me dar valor, eu fiz o mesmo trabalho da pessoa que se valorizou, mas não recebi o título compatível às atribuições.
Eu também aprendi uma coisa depois da votação: Que mesmo não sendo o líder, as pessoas confiavam em mim. Eu fui sempre atendido, sem xingamentos, todas as vezes que levantei o braço fazendo o sinal pedindo silêncio. Os outros alunos sabiam que eu praticava o que pregava, e que nunca o pediria se não era realmente necessário.
Quem diria que 15 anos depois eu ainda não aprendi tudo que me ensinaram na quarta série?
Erros humanos e erros eletrônicos
Resolvi escrever sobre o assunto do AF447 aqui porque nos trás uma lição importante sobre gerência de pessoas e de recursos.
O autor Paulo Coelho no Twitter agora a pouco enviou uma série de tweets sobre o assunto, principalmente no que diz respeito a uma reportagem que leu no blog Da França, da revista Veja, que mostra o mapa da rota de voo do avião. Ele pergunta, por que as pessoas não falam mais sobre isso na mídia? Além disso ele diz que a caixa preta não é a resposta. Suponho que ele espere provar desta forma que foi imprudência do piloto — um ponto de vista que não é compartilhado pelo leitor Silvério Henrique, que comentou que “É FÁCIL RESOLVER PROBLEMAS CULPANDO QUEM ESTÁ MORTO..”
Eu não compartilho a visão deles. Culpar o piloto sem a caixa preta é declará-lo culpado até que se prove o contrário. Não considerar o piloto na equação dos eventos que podem ter causado uma tragédia dessas porque “é feio bater em morto” é um sentimentalismo barato que evita encarar a situação de frente: mais feio ainda é ser injusto.
Os fatos são estes: os humanos falham, pois são imperfeitos. As máquinas também, pois foram criadas por nós. Esses fatos por si só são capazes de apavorar qualquer um…
Mas não apavoram. Por que isso acontece?
Porque a sociedade que criou a máquina que caiu e formou os homens que a pilotam diariamente é uma sociedade ousada. Nós, no Ocidente, e especialmente na França, temos uma cultura onde a ousadia, ou seja, a tentativa apesar dos riscos é um ato celebrado. Imagine desta forma: sem antena não há rádio; sem manutenção, não há antena; sem subir na antena, não há manutenção; ao subir na antena, há o risco de queda e morte; sem o risco de queda e morte, não há rádio.
Na verdade haveria. Mas não seria o rádio como você conhece hoje, mas um bem restrito, com baixa qualidade e baixo alcance.
Nós aceitamos os riscos de bom grado geralmente até o momento onde algo termina mal: um hematoma, um osso quebrado, um mês no hospital, até a morte. Nesse momento nós questionamos, por que nós nos arriscamos tanto?
Para aprender. A verdadeira tragédia não é só a de quem morre e não pode completar a sua história de vida. Também não é a de quem está vivo e não poderá mais ter a companhia dessas pessoas que perderam no acidente. É sim a de quem está vivo e não aprendeu nada com isso.
Que todos nós aprendamos: aprendamos que a vida é curta e que vale a pena dar o melhor de nós para sermos hoje o que, talvez, não pudermos ser no futuro. Que sejamos boas pessoas hoje, profissionais competentes hoje, bons familiares hoje, que mudemos o mundo para melhor hoje.
A Associated Press consegue ser ainda mais ridícula
A TechCrunch denunciou mais um indicativo de como a Associated Press tem uma diretoria anacrônica e acéfala. Desta vez eles enviaram uma carta de cessação para eles mesmos!
A rádio WTNQ-FM, afiliada à Associated Press desde dezembro, colocou alguns vídeos do canal oficial da AP no YouTube em seu site. Aparentemente o vice-presidente de relacionamentos com afiliados da AP não sabia que as pessoas podem, a qualquer momento, por escolha da AP, embutir um vídeo do canal oficial de sua empresa em qualquer site do mundo, sem pedir consentimento prévio da AP!
A AP se desculpou ao gerente da WTNQ e disse que estava apenas tentando oferecer “serviços superiores voltados às necessidades deles” — ou seja, o OVN. O problema é que a YouTube é um serviço voltado à necessidade deles, enquanto o OVN é uma desculpa esfarrapada para um serviço de vídeo na web.
Essa empresa precisa desesperadamente ir à bancarrota.
XXII Fórum da Liberdade
Estive no Fórum da Liberdade nos dias 6 e 7 de abril de 2009 a convite de um amigo meu, e certamente esta foi uma das melhores experiências que tive. Segue um resumo do que vi nos painéis.
Vicente Fox
O ex-presidente do México defendeu que a crise no mercado atual é apenas um ciclo normal do capitalismo, agravado pela questão do mercado imobiliário. Falou que, após um período de crescimento recorde, um farto banquete, este é o momento da indigestão. Fox vê o tempo do liberalismo indiscriminado como acabado, mas vê o tempo da visão de controle do estado à la socialismo acabado também.
Cultura da Liberdade
Participaram Charles Murray e Bolívar Lamounier.
Murray, cientista político americano, palestrou do seu ponto de vista, como americano, do resultado de medidas assistencialistas em seu país. Em sua opinião, o resultado é que os quatro pilares principais da sociedade – família, vocação, comunidade e fé – são abalados quando há assistência do governo, gerando um sistema onde apenas o prazer é visto como tendo valor.
Lamounier falou do ponto de vista brasileiro e como encaramos o nosso processo de colonização e o culpamos pelo que somos hoje. Seu argumento é que, apesar da colonização ter um determinado impacto no presente, ele não é tão grande quando comparado com nossas decisões no passado recente e nossas políticas atuais.
Liberdade e Protecionismo
Participaram Otto Guevara Guth, Alessandro Teixeira e Ruth Richardson.
Guth falou dos impactos causados pelas intervenções do governo na Costa Rica, seu país. Ele deu o exemplo do protecionismo com a indústria de derivados do leite e também de carne, onde o aumento das barreiras apenas causou um aumento dos preços e gastos maiores à população. Gastando mais em comida, o cidadão não é capaz de utilizar seu dinheiro em outras coisas, o que criou um efeito contrário ao desejado na economia.
Teixeira falou da importância dos esforços da APEX-Brasil de romper barreiras protecionistas em países estrangeiros. Ele utilizou o exemplo da Rússia, onde novas normas técnicas barraram a entrada de carne brasileira naquele país, e como outros países como os EUA, por trabalharem a mais tempo e investirem mais naquele mercado, são capazes de se certificar de que seus produtos serão comercializados sem revezes através da instalação de quatro escritórios naquela federação. O Brasil está abrindo este ano apenas o primeiro.
Richardson defendeu a ideia de que os mercados estão em uma situação de desorientação. Ela disse também que a solução encontrada pela Nova Zelândia para chegar à quinta posição no Índice de Liberdade Econômica foi a de adotar uma postura total e radicalmente liberal de forma unilateral. Em seu ponto de vista, um país liberal é capaz de melhorar sua economia mesmo que seus parceiros não o façam imediatamente. A liberdade de um seria capaz de superar em performance o protecionismo do outro.
Liberdade e Intervencionismo
Participaram Alberto Carlos Almeida, Gustavo Franco e Denis Rosenfield.
Almeida trouxe os dados estatísticos divulgados em seu livro “A cabeça do brasileiro”. Entre várias estatísticas, ressalta-se que quando o assunto é intervencionismo, as pessoas de escolaridade mais baixa acreditam que o governo deve criar projetos de auxílio à população pobre, enquanto os de escolaridade mais alta são defensores do liberalismo econômico.
Quando perguntado sobre se o brasileiro com menos educação sabe que o dinheiro de uma medida assistencialista vem do bolso dele, Almeida respondeu que o brasileiro não faz idéia. Exemplificou com a compreensão de geografia: apenas 50% da população é capaz de encontrar o Brasil no mapa mundi. O estado que os brasileiros mais reconhecem no mapa do Brasil é o Rio Grande do Sul: 23% sabem encontrá-lo.
Gustavo Franco, presidente do BACEN no governo FHC, falou da utilidade do Banco Central como uma entidade criada para impedir que o governo abuse do direito de emitir dinheiro, no mundo em que o ouro foi substituído pelo papel-moeda. Diz ele que enquanto os BACEN do exterior foram formados na década de 1920-30, o do Brasil só teve real influência na política cambial na década de 1990, fato este que teria auxiliado a gerar um cenário de hiperinflação no país. Ele defende intervenções econômicas, como o Plano Real, mas que ao contrário do que se pensa, a intervenção no Brasil é exceção, não regra. Criticou o Governo de não levar nossa experiência para o G-20 da maneira que deveria.
Rosenfield começou chamando de esdrúxulas as ideias de que o capitalismo está acabando, mas que o momento é “perigoso”, pois o apoio a essa visão é muito forte, e que há uma consolidação de uma mentalidade autoritária. Seu aviso é: “Não podemos criminalizar a liberdade de escolha.” Ele louvou os esforços do promotor Gilberto Thums de fechar as escolas itinerantes do MST, dizendo que essas escolas são utilizadas para doutrinar os alunos com as ideias do MST, que incluem o uso da violência como algo correto de se fazer.
Liberdade de Etnias
Participaram Franklin Cudjoe, Demétrio Magnoli e Frei David dos Santos.
Cudjoe trouxe uma história resumida da política em Gana, com uma visão holística das várias etnias que pertencem àquele país. A mensagem que tentou passar foi a de que, por mais bem-intencionadas que fossem as tentativas de intervenção do governo de Gana para a inclusão de minorias étnicas, elas acabaram por levá-lo a um regime totalitário e a leis e costumes de inclusão que prejudicam o país como um todo. Diz ele que não há, realmente, conflitos relacionados a etnias na África neste momento, mas sim conflitos relacionados ao direito de propriedade, que não está sendo respeitado nos países daquele continente.
Magnoli falou que essa discussão é uma que ele não gosta de entrar, pois há a necessidade do uso das palavras “negro” e “branco”, termos que não são condizentes com o “contrato político” atual, que tem quatro pontos, segundo ele: igualdade perante a lei entre indivíduos (não entre grupos); a ausência de passado e ancestralidade do indivíduo, que só possui presente e futuro (ou seja, a hereditariedade não pode ser utilizada como prerrogativa para direitos); igualdade de oportunidades, que é diferente, mas depende da igualdade perante a lei para existir; por fim, ela é anti-racial, do ponto de vista que a raça não é prerrogativa para recebimento de benefícios ou de tratamento privilegiado na esfera política. Ele nota que a defesa de uma identidade “como de uma nação” defendida, diz ele, por Kabengele Munanga, e argumentos repudiando a miscigenação apresentados por Teófilo de Queiróz Júnior na introdução do livro de Munanga “Rediscutindo a mestiçagem no Brasil: Identidade nacional versus identidade negra”, não condiz com o que é visto no censo, onde há um aumento do número de pessoas que deixam de se dizer “brancas” e “pretas” para se identificar como “pardas”. Magnoli disse que, cada vez mais, “o brasileiro diz que raça é coisa para cachorro”.
Frei David defendeu as cotas como um programa que abriu portas para outros mais inclusivos, como o ProUni, que beneficiaram pessoas de baixa renda independente da cor de pele. Em sua apresentação ele mostrou que na população brasileira, aqueles que se identificam como “pretos” e “pardos” – agrupados pelo IBGE em um grupo “negros” – têm ainda menos oportunidades e menos renda quando comparado com os brancos em uma disparidade que continua no mesmo patamar ao longo das décadas. Ele também mostrou dados de que os cotistas produzem resultados acadêmicos mais elevados do que os não-cotistas, além de elogiar o Itaú por criar um sistema de inclusão da população negra dentro do banco e, principalmente, nos cargos de chefia.
É impossível aqui fugir de uma análise da resposta da plateia: Cudjoe e Magnoli foram abertamente aplaudidos, enquanto Frei David foi vaiado – este disse que faz parte da democracia, enquanto Magnoli repreendeu a plateia por vaiar o Frei, pois na democracia “se escuta”. Na sessão de debate do painel, Cudjoe apontou que a criação de uma cadeira cativa para a vice-presidência de Gana para um habitante da região norte do país, com o objetivo de incluir uma minoria, resultou em uma série de vice-presidentes ruins, assim como a criação de cotas no parlamento para mulheres, que resultou na eleição de mulheres cujo nível de educação não se comparava com os homens a quem suplantaram. Magnoli respondeu à pergunta do Frei David “Quantos negros vocês veem ao seu lado?” com “Quantos pobres vocês veem ao seu lado?” e recebeu muitos aplausos, numa indicação que a plateia vê como mais correto uma classificação por renda do que por ancestralidade.
Liberdade de Imprensa
Participaram Cláudia Vassallo, Tom Palmer e Humberto Ávila.
Como não pude acompanhar a participação de Vassallo, cito Felipe Vieira:
Cláudia Vassalo defendeu a liberdade de imprensa legal e irrestrita em uma sociedade livre personificada pelo leitor. Para a jornalista, “a imprensa livre e a democracia são indissociáveis. Nas ditaduras, são extintos o tráfego de opiniões e informações”. Quanto aos argumentos contra a livre imprensa, como denúncias e manipulação e corrupção, Cláudia afirmou que a o público é o grande júri da mídia, “a mão invisível do leitor sempre funciona”.
Palmer disse não há necessidade de leis regulando a liberdade de expressão, pois a liberdade não é uma permissão do estado, mas um pressuposto do estado. Um exemplo de regulamentação da liberdade de expressão que ele vê como ruim é o direito de resposta: quando implantado nos EUA, foi utilizado pelo governo para calar dissidentes. Ele defende que a imprensa seja livre, exceto se envolvida em uma conspiração criminosa ou em um processo de quebra de direitos da população. Ele também defende que a mídia estatal não é livre, e que a mídia deve sempre ter certeza de que é capaz de andar com as próprias pernas. Quando questionado sobre se é correto permitir a uma pessoa ser jornalista apenas quando tem um diploma de jornalismo, ele diz que a regulamentação é a pior forma de censura.
Ávila começou a sua palestra notando que, quando convidado, teve total liberdade para escolher o assunto, não foi pedido nem que ele o revelasse e que, naquele momento, não havia qualquer censor do seu lado, lembrando que até recentemente isto não era assim. Falou da lei de imprensa criada em 1967 (em julgamento no STF) e de como, em sua visão, ela é totalmente contrária à constituição brasileira, utilizando conceitos abstratos como “moral e bons costumes” como prerrogativa para impedir a circulação de certas notícias. A importância da liberdade de imprensa para ele é a de que, até que uma idéia seja exteriorizada, ela ainda se encontra em estado embrionário, e que só após essa exteriorização é que pode ocorrer a crítica, que a enriquece.
Salim Mattar
No encerramento, o Presidente da Localiza deu uma visão geral da história humana e da história do capitalismo. Segundo ele, as intervenções governamentais, exemplificadas principalmente pelas linhas de crédito para compra de casa própria por pessoas de baixa renda nos EUA, desregulam o mercado e causam as chamadas depressões. Na sessão de perguntas ao palestrante, quando questionado sobre quem causou mais problemas para o negócio dele, foi enfático em dizer que nunca teve tantos problemas com clientes ou fornecedores quanto teve com o governo e suas intervenções.
Erros e acertos na indústria musical
Apesar de tudo de ruim que ocorre no mundo da música, eu me sinto um tanto abençoado em poder ver uma grande mudança acontecendo bem diante dos meus olhos. Muitas ocorreram enquanto eu crecia, mas esta é a primeira vez que eu tenho discernimento o suficiente para compreender a mudança.
Duas coisas vieram ao meu conhecimento neste mês de março que merecem menção, pois batem de frente com o novo marketing e o comércio como ele é hoje.
Premissas
É importante deixar claro que, para um músico, é mais lucrativo fazer shows do que vender albuns, pois no show ele ganha uma parcela maior da renda.
Por outro lado, também gostaria de deixar claro que a Web 2.0 é, na verdade, uma buzzword para “produto digital melhorado a partir da contribuição do usuário”.
Esses dois conceitos são importantes.
Caso um: Nine Inch Nails
Duas bandas fizeram sucesso em 2007/2008 nos círculos do marketing: Radiohead, que lançou o album In Rainbows em um modelo “pague o que quiser” e o Nine Inch Nails, que lançou o album Ghosts I gratuitamente, enquanto você deveria comprar as outras partes.
Em 2008 o NIN lançou o album The Slip gratuitamente pelo seu site. Junto com isto, eles começaram a turnê Lights In The Sky, que foi um sucesso, apesar de fiascos como o cancelamento dos shows no Brasil, que lhe rendeu apelidos como Blackout In The Sky. (Ressalva: Eu sou fã da banda e eu tinha comprado já os tickets para o show de Porto Alegre.)
Chegando ao ponto finalmente, em 13 de dezembro de 2008, o último show da turnê foi gravado por “dúzias de fãs” em Las Vegas, que se organizaram a partir do fórum da banda. Em algum ponto de janeiro, o próprio Trent Reznor avisou os usuários que devido a uma “falha na segurança” (aham…) um grupo de pessoas conseguiu “de alguma forma” gravar 400GB em vídeos de alta definião dos shows de Victoria, Portland e Sacramento.
O resultado é o DVD Another Version of the Truth, que está em produção pelos fãs da banda. Mas o pessoal do projeto, em thisoneisonus.org, já disponibilizou o áudio das apresentações (nomeadas “Las Vegas” e “The Gift”) em MP3 e FLAC.
Aqui está o teaser do DVD:
O que mais me chamou a atenção nessa história toda não foi a bondade do NIN com os fãs que trabalharam e ainda trabalham de graça em prol de uma banda que amam.
O que mais me chamou a atenção mesmo foi uma afirmação do Ash512, editor chefe do projeto, ao anunciar o progresso do projeto no dia 15 de março:
Nós na verdade descobrimos que as filmagens que vocês enviaram são em geral mais fixas, melhor planejadas e completas, ao contrário das coisas do gift, que são apressadas, mexidas e sofrem de falta de direção.
Ou seja, nem toda a boa vontade da banda, nem o acesso ao backstage, nem a câmera em alta definição usada pelo NIN foi capaz de se comparar à ação planejada de fãs voluntários.
Sozinho, o Nine Inch Nails não conseguiria fazer o que os fãs fizeram. Graças aos fãs a banda terá ainda mais marketing gratuito, aumentando a demanda por shows em todo o mundo.
Caso dois: Last.fm
A Last.fm é um serviço Web 2.0 clássico: uma rádio online e rede social ao mesmo tempo. Através do site deles ou de um programa de computador chamado scrobbler, eles capturam dados sobre o que você escuta, determina a partir desses dados quais são as suas preferências musicais, e então recomenda músicas ou bandas que você provavelmente gostaria de ouvir, ou saber quais pessoas são mais ou menos compatíveis com as suas preferências musicais. (Ressalva: Eu sou usuário da Last.fm e eu pago pelos serviços premium.)
Dia 24 de março a Last.fm publicou em seu blog oficial que deixará de ser um serviço gratuito com opção para assinatura de serviços premium. Em vez disso, ela cobrará € 3,00 de usuários de todo mundo, exceto EUA, Reino Unido e Alemanha. A racionalização é que, nestes três países, a receita gerada pelos anúncios de propaganda (que aparecem se você não é usuário premium) são suficientes para manter o serviço ativo. Nos outros, isto não é possível.
Eu poderia enumerar uma série de motivos pelos quais eles não deveriam ter feito essa decisão. Talvez a mais grave, do ponto de vista financeiro, é a que alguém pode processá-la na União Européia por praticar preços díspares nos países membros. A própria Apple já teve de enfrentar a União Européia por fazer isto com a iTunes Store. Isto pode forçar a Last.fm a fazer uma decisão: cobrar de dois dos três países que ela não está cobrando, ou isentar de cobrança os 25 outros países da União Européia. De um lado se perde usuários, do outro lado se perde dinheiro.
Mas eu vejo um fator ainda mais grave. Como eu disse na apresentação ao serviço, ele se torna funcional apenas quando os usuários o utilizam. Ou seja: se ninguém escutar música na Last.fm ou enviar dados para a Last.fm, o serviço não possuiria informação suficiente para analisar as preferências musicais de ninguém.
Portanto, tecnicamente todo usuário da Last.fm é um prestador de serviços da empresa. Eu pessoalmente nunca diria a um pedreiro que ele só pode construir a parede da minha casa se ele pagar, e que se ele resolver trabalhar de graça não poderá usufruir da minha casa. Mas foi basicamente isso que a Last.fm fez.
Sozinha, a Last.fm não conseguiria fazer o que os usuários fizeram. Graças aos usuários a Last.fm tornou-se o mais exato termômetro de tendências musicais no mundo. Sem usuários, a Last.fm perde valor de mercado.
A importância da estratégia
Um dos pontos que mais me chamaram atenção na palestra do Willie Smits na TED (veja o último artigo) foi que, de certa maneira, ele me lembra das teorias de John Boyd. A comparação pode parecer absurda, já que este último era um piloto de caça, um estrategista militar; e o primeiro é uma pessoa que viu um problema sério na sua comunidade e tentou resolver, de forma totalmente inclusiva e pacífica. Mas a comparação é inevitável e as semelhanças inegáveis.
O erro aqui, cometido por muitas pessoas de índole pacífica, é não perceber a semelhança entre eles mesmos e os guerreiros de nossa época. Os oficiais militares nada mais são do que especialistas em solução de conflitos. Muito pode ser aprendido se você souber interpretar o que eles ensinam.
Vamos analisar o que Smits fez nos termos que Boyd colocou em Patterns of Conflict (slide 141 em todas as citações):
Objetivo Nacional
Melhorar nossa capacidade, como um todo orgânico, para moldar e lidar com um ambiente sempre em mutação.
Não há melhor forma de descrever o que Smits está tentando fazer por seu país.
Macro-Estratégia
Moldar a busca do objetivo nacional para que nós não apenas amplifiquemos nosso espírito e força (enquanto minamos e isolamos nossos adversários), mas também influenciamos os descompromissados ou adversários potenciais para que eles sejam trazidos à nossa filosofia e tenham empatia com nosso sucesso.
Novamente, definição irrepreensível, embora não pareça muito claro de início.
Quem é o “nós” na definição? A população do distrito de Samboja como um todo, incluindo humanos, fauna e flora.
E quem são os adversários que devem ser minados e isolados? Ironicamente eles são uma parcela do “nós”: os humanos de Samboja. Eu não digo “os humanos maus de Samboja”, mas sim toda a população humana de Samboja, pois eles desmatam, fazem queimadas, utilizam os recursos naturais de maneira predatória e maltratam os orangotangos de várias formas (lembrando que os orangotangos existem só em Bornéu e Sumatra). Além disso, Samboja tem um outro inimigo: queimadas naturais. A macro-estratégia de Smits é:
- minar qualquer possibilidade das pessoas voltarem aos seus hábitos destrutivos — que buscavam lucro a curto prazo através da destruição das florestas ou da exploração de orangotangos;
- minar a capacidade das queimadas de causar prejuízos financeiros aos habitantes e destruir o habitat da fauna de Samboja e Bornéu como um todo;
- isolar os habitantes que não cooperarem;
- trazer as pessoas que estão “em cima do muro” para o lado de quem deseja conservar a vida selvagem de Samboja e Bornéu como um todo;
- mostrar para os adversários potenciais que o modelo é sustentável e é melhor que eles estejam do seu lado do que contra ele.
Objetivo Estratégico
Diminuir a capacidade de adaptação do adversário enquanto melhoramos nossa capacidade de nos adaptarmos como um todo orgânico, para que nosso adversário não possa lidar — enquanto nós podemos lidar — com eventos/esforços enquanto eles se desenrolam.
Quanto mais dentro do sistema de Smits uma família participante está, mais difícil é sair. Os benefícios são tão grandes (especialmente para um local com 50% de desemprego em 2002) e o modelo é tão sustentável que participar não é apenas a coisa certa a se fazer: é a única saída.
Por outro lado, para quem está fora, é fácil entrar. A medida que cada ano passa o solo de Samboja empobrece, as fontes de renda vão se esvaindo, e o resultado final é inevitável: ou a pessoa se desfaz da terra, ou tenta recuperá-la. Ao se desfazer da terra, dependendo do preço, a possibilidade de Smits comprá-la é maior, pois o solo pobre é barato. Ao tentar recuperar o solo, a escolha do modelo de Smits é a mais óbvia.
A redução no número de queimadas e incêndios naturais é o resultado natural derivado de Smits alcançar os objetivos estratégicos.
Estratégia
Penetrar no ser moral-mental-físico do adversário para dissolver sua fibra moral, desorientar suas imagens mentais, atrapalhar suas operações e sobrecarregar seu sistema, assim como subverter, quebrar, agarrar ou de outra forma subjugar esses bastiões, conexões ou atividades morais-mentais-físicos das quais ele depende, de forma a destruir sua harmonia interna, produzir parálise, e causar colapso na vontade do adversário de resistir.
Como Smits falou, explicar a estratégia é simples: Ele comprou a terra e deu um jeito na ameaça do fogo primeiro. Ou seja, derrotou o primeiro adversário atrapalhando as suas operações, subjugando a atividade física da qual ele depende, causando parálise e colapso em seu sistema.
Então ele começou o reflorestamento com um projeto de gerenciamento profissional (começou a derrotar o segundo adversário). Durante todo o processo a população local estava completamente envolvida para que nenhuma força externa pudesse interferir. Ou seja, trouxe os descompromissados e os adversários potenciais para o seu lado, dissolveu a fibra moral do adversário ao atrapalhar suas operações e ao quebrar os bastiões morais-mentais-físicos do qual a atividade predatória dependida. O adversário não tem resistido, e vem se rendendo à causa mais justa.
Os pilares desse projeto, segundo Smits, são que ele é:
- socialmente aceitável;
- economicamente funcional;
- ecologicamente sustentável;
- possui base científica;
- é plenamente legalizado.
Observando o que ele possuía em termos de plantas, fertilizantes e habilidades disponíveis, ele desenvolveu um plano de trabalho e um plano de negócios — a base estratégica para que tudo isso funcionasse.
Macro-tática
Manobrar o adversário além de sua capacidade moral-mental-física de se adaptar ou se sustentar para que ele não possa nem adivinhar nossas intenções nem focar seus esforços para lidar com o desenho estratégico que se desenrola ou ataques decisivos relacionados enquanto os ataques os penetram, dividem, isolam ou cercam, e os sobrepujam.
A macro-tática de Smits gira em torno de:
- Incapacitar o fogo de se sustentar ou se adaptar fisicamente. A curto prazo isto é feito através de táticas de combate ao incêndio (emprego dos moradores de Samboja como combatentes do fogo provisórios) e a longo prazo com a criação de uma barreira natural contra o fogo. Essa barreira é feita com uma plantação de palmeiras produtoras de açúcar — que não queimam facilmente — cercando o terreno contra incêndios que vêm de fora.
- Manobrar qualquer resistência humana contra a conservação das florestas e da fauna para além da capacidade dos agentes destrutivos de agir contra a comunidade unida ou sustentar seu modelo depredatório — uma das táticas para chegar a essa macro-tática vem da própria plantação de palmeiras: o etanol extraído delas pode ser utilizado para gerar energia e pode ser vendido também, gerando renda.
Táticas
Observar-orientar-decidir-agir mais discretamente, mais rápido, e com mais irregularidade como base para manter e ganhar iniciativa assim como moldar e mudar o esforço principal: de repetidamente e inesperadamente penetrar vulnerabilidades e fraquezas expostas por esse esforço ou outro(s) esforço(s) que chamam, desviam, ou drenam a atenção do adversário (e força) em outro lugar.
Eu já falei de algumas táticas enquanto falava da macro-tática, mas só para ilustrar o quão em sintonia Smits e Boyd estão, dê uma olhada em 10:40 do vídeo, mais ou menos onde Smits começa a falar do seu programa de reflorestamento.
- Irregularidade: Smits mostra que a natureza não dispõe a vegetação de forma regular. Da mesma forma, seu plano de reflorestamento não inclui monocultura. O projeto não funcionaria sem que a irregularidade fosse a lei. A irregularidade também significa agarrar oportunidades quando elas surgem: uma queimada não planejada que precisa ser apagada torna-se uma oportunidade de empregar mais pessoas.
- Rapidez: Assim como um exército envia uma companhia leve para fazer o reconhecimento à frente, Smits enviou árvores de crescimento rápido e vida curta para restaurar o microclima para espécies que viriam mais tarde. Preparar e proteger o solo o mais rápido possível era importante para evitar novas queimadas e começar a reconstruir o habitat dos orangotangos.
- Sendo discreto: O programa de reflorestamento também tinha como objetivo criar empregos. Smits portanto limitou o número de plantios por dia em 1.000 árvores. Isso impediu que as pessoas contratadas por Smits ficassem sem emprego. Ele soube fazer concessões com sabedoria.
- Explorar vulnerabilidades e fraquezas: Vendo o lado da natureza e do âmbito humano:
- Considerando que o adversário na natureza é o solo pobre que possui apenas vegetação rasteira, a vulnerabilidade desse adversário é exatamente a de ele ser aberto. Um plano de plantio que permite que cada árvore possua o máximo de exposição ao sol e tenha pouca competição por nutrientes faz com que as árvores se desenvolvam melhor. Uma vez que elas se desenvolvem, os fungos se alimentam das folhas que caem, trazem os nutrientes de volta ao solo e alimentam as árvores. O solo é “derrotado” por assim dizer, e trazido para o lado de Smits.
- Considerando que o adversário no âmbito humano é o desemprego, a criação de empregos é explorar uma fraqueza da sociedade. Dizendo isso dessa forma, parece um tanto agressivo, mas essa criação de empregos em locais pobres pode ser feita de forma aproveitadora ou de forma correta.
- O ciclo OODA: Smits criou sistemas de monitoramento eficazes, criando assim seu efeito de “nacele em bolha”. Monitorando o Samboja Lestari utilizando recursos sofisticados — como um satélite — e recursos naturais — como hervas que crescem no solo e permitem uma medição da qualidade do mesmo — Smits criou mecanismos de observação que permitem uma orientação muito mais precisa do que ele teria de outra forma.
Conclusão
Depois de tanta análise, eu percebo como é difícil compreender uma mente brilhante como a de Willie Smits com uma cabeça tão pequena quanto a minha. Mas eu posso compreender isto: ele está lutando a guerra justa.
Boyd usou seu cérebro para lutar contra a burocracia burra de Washington. Ele se recusou a aceitar a doutrina de que um soldado deve apenas seguir ordens. Ele se recusou a aceitar a política da contagem de corpos como indicador de quem ganhou uma guerra. Seu objetivo era deixar os seus compatriotas vivos, e os inimigos também vivos — embora em condição de prisioneiros de guerra, era melhor estar vivo do que morto. Ele mostrou que não só as manobras utilizadas nos caças e bombardeiros americanos, mas também os aviões mal-projetados da Força Aérea e as táticas americanas mal-sucedidas no Vietnã eram frutos de falta de estudo, de planejamento estratégico e de ação coordenada. Ele mostrou que um homem pode, figuradamente, “fazer chover”.
Smits utilizou seu cérebro para lutar contra a terceira maior emissão de carbono do mundo, um crescimento gradual na temperatura média local, desastres naturais, pobreza, doença, degradação do meio-ambiente, um desaparecimento de quase todas as aves e insetos de Samboja, e a morte de orangotangos — vendidos como canários nas ruas, ou mortos para servir de janta nas casas pobres. Ele se recusou a aceitar a doutrina de que o preço de uma comunidade humana próspera é um ambiente destruído. Ele mostra que a condição atual do nosso planeta nada mais é do que falta de estudo, de planejamento estratégico e de ação coordenada. Ele mostrou que um homem pode literalmente fazer chover.
Willie Smits resgata uma floresta tropical
A melhor parte é a que ele corta o pessoal que começa a aplaudir no início. Ele sabe que merece aplausos, mas não por aquilo.
Essa é definitivamente a pessoa mais consciente que já vi na minha vida.